moralismo a metro →
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ontem, numa destas redes sociais, uma amiga dos tempos em que pertenci a uma juventude partidária, agora deputada pelo psd na a.r., justificou o seu voto contra os projetos de lei que propunham a adoção de crianças por casais do mesmo sexo com o “o superior interesse das crianças”.
não resisti a perguntar se acreditava mesmo nisso. se acreditava que não dar qualquer possibilidade a um casal homossexual de adotar uma criança, ou, por outras palavras, retirar possibilidades a uma criança de vir a crescer no seio de uma família, é defender um abstrato, superior e universal interesse das crianças. o argumento parece-me um pouco tonto. tonto ou patético, porque tal argumento só faria sentido se acreditarmos que, à partida, um casal de pessoas do mesmo sexo é prejudicial ao crescimento da criança que os dois decidem adotar, comparativamente ao cenário da criança vir a ser adaptado por um casal heterossexual, ou de - talvez no cenário mais provável - nem sequer vir a ser adotada. e ainda há quem acredite que casais homossexuais comem crianças ao pequeno almoço, ou que, todos os pedófilos deste mundo são homossexuais. enfim, é uma justificação que passa o tonto, o patético ou o estúpido, mas que ainda corre por aí.
na assembleia desta república ouve ainda quem invoca-se o principio de um criador - não se sabe ao certo qual - para salvar a sociedade de mais uma das dramáticas fraturas patrocinadas pelos os terroristas do costume. sim, pode parecer estranho, mas para algumas cabeça, igualdade de direitos, numa sociedade ocidental, moderna e democrática, pode ser fraturante. enfim, também já ouvimos antes uma líder partidária em modo de histeria, a impingir moralismo a metro ao pais. a senhora quase quis legislar a procriação como o objetivo da família. valeu de alguma coisa? não me parece. se tivesse deixado o seu moralismo para si própria, não teria que se coçar ao constatar que depois de se fazer justiça no acesso ao casamento, os portugueses são um pouco mais justos e solidários no que toca à igualdade de direitos, do que algumas cabeças querem fazer crer.
mas o mais inquietante é o armar ao pingarelho de um órgão de soberania de um estado democrático sobre a liberdade de cada um. e se deixarem os cidadãos que representam viverem a sua vida com o moralismo que bem entenderem? não será boa ideia? custa assim tanto? a liberdade ainda faz assim tanta comichão passados estes 38 anos? acham mesmo que fazer leis mais justas é experimentalismo social? que grandes malucos aqueles.
recomenda-se ainda aos senhores e senhoras deputadas a leitura da lei fundamental pela qual regem o a sua função: a descriminação que esta impedição implica não parece ir muito ao encontro do espírito do ponto dois do artigo 13.º - principio da igualdade - da constituição da república:
“ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual.”
uma assembleia que não honra a sua própria constituição, composta por uma elite política que não tem a ousadia de fazer a sociedade portuguesa sair da sombra do preconceito, que capacidades terá para enfrentar as dificuldades bem mais complexas que o país atravessa?
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